Mulheres no centro das soluções de impacto

Em março, o debate público costuma ampliar a atenção para temas relacionados à equidade de gênero. Mais do que uma data simbólica, esse momento convida a refletir sobre desafios estruturais que ainda atravessam a vida de mulheres em diferentes contextos, desde a persistência de violências de gênero até desigualdades no acesso à renda, crédito, reconhecimento e espaços de decisão.

Na Yunus Negócios Sociais, essa reflexão dialoga diretamente com nossa forma de atuar. Ao longo da nossa trajetória, temos aprofundado a compreensão sobre como desigualdades de gênero se conectam a dimensões econômicas, territoriais e raciais, e sobre como negócios de impacto, investimento e articulação em rede podem contribuir para enfrentar essas estruturas.

Esse olhar também se constrói na prática, a partir do acompanhamento de empreendedoras, do desenvolvimento de iniciativas em parceria com organizações e empresas e do diálogo com diferentes atores do ecossistema de impacto.

Em diferentes territórios e frentes de atuação, mulheres vêm estruturando soluções que combinam empreendedorismo, geração de renda, fortalecimento comunitário e transformação socioambiental. São lideranças que pesquisam, investem, articulam redes e constroem caminhos para novos modelos econômicos.

Dar visibilidade a essas trajetórias é também fortalecer um ecossistema em que vozes femininas plurais tenham espaço, reconhecimento e condições para desenvolver soluções economicamente viáveis e socialmente transformadoras.

Iniciativas lideradas por mulheres no ecossistema Yunus

Essa presença feminina também se reflete nas iniciativas acompanhadas ou apoiadas pela Yunus Negócios Sociais, em programas de aceleração, portfólios de investimento e projetos desenvolvidos em parceria com organizações públicas e privadas.

Aceleradas lideradas por mulheres: Programa Regenera

A Yunus Negócios Sociais recebeu a missão de apoiar o Sebrae do Rio Grande do Norte na construção de uma jornada de desenvolvimento para empreendedores locais. O Programa Regenera IV acelerou negócios que gerassem renda, sustentabilidade e fortalecimento territorial em seus modelos de atuação.

Nesta edição, destacamos três negócios liderados por mulheres empreendedoras que integram o programa e ilustram diferentes caminhos de construção de impacto.

Arara Azul, fundada por Sylvia Furtado, é uma startup de moda circular e sustentável comprometida em transformar o mercado da moda. A iniciativa atua por meio de doações, reciclagem e venda com propósito, buscando fazer da moda uma força positiva para o planeta e para as pessoas. Por meio do Programa Arara Social, promove reaproveitamento têxtil, capacitação e inclusão produtiva de mulheres, especialmente em contextos de vulnerabilidade, conectando circularidade, autonomia financeira e fortalecimento de redes locais.

Poty Cuidados Naturais, fundada por Beatriz da Terra, integra práticas de saúde, saberes ancestrais e empreendedorismo. O negócio desenvolve produtos naturais voltados ao cuidado feminino e atua também com educação menstrual e vivências formativas, articulando geração de renda, valorização cultural e cuidado sistêmico.

Gueorguia, criada por Georgia Dantas, é uma marca autoral de moda artesanal que conecta cultura, arte, artesanato e gastronomia, apresentando o Rio Grande do Norte por meio da economia criativa e valorizando o que é feito à mão. A iniciativa mobiliza redes de artesãs e promove consumo consciente, estruturando uma cadeia produtiva de pequena escala que integra propósito, identidade e viabilidade econômica.

Além desses exemplos, outros negócios liderados por mulheres também participaram da jornada do programa, como Caju Maria Ateliê (Wilza Santos), Conexões 84 (Tatiana Pires), Empregacitar (Soniete Carvalho), Ilibras (Rafaele de Oliveira), Juriself (Marília Almeida), Katu Experiências (Maria José Pimentel), Magia Vegana (Julia Macedo), Orgâniccas (Bruna Coimbra e Fernanda Covos), Petit Poti (Nathália Groner), ReforAMAR Capacita (Fernanda Silmara) e Virô Bolsas Sustentáveis (Mychelle Magalli). Negócios liderados por mulheres no portfólio Yunus.

No portfólio de investidas do FIDC – Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, estruturado para oferecer empréstimos de longo prazo com taxas acessíveis, há um conjunto de negócios liderados por mulheres que atuam em diferentes setores, da educação profissional à alimentação, da economia circular à bioeconomia amazônica.

Entre eles estão iniciativas lideradas por Sandra Nalli (Escola do Mecânico), Giovanna Meneghel (Nude), Priscilla Veras (Muda Meu Mundo), Natália Pietzsch e Amália Koefender (Arco Resíduos), Geysa Borini Rodrigues e Marina Andrade (Assobio), Ana Paula Silva (Morada da Floresta), Fabiana Manetti (Pragma) e Carla Zeltzer (Fazgame).

Já no Zunne, plataforma de investimento voltada a negócios que geram impacto positivo, com prioridade para iniciativas lideradas por mulheres, pessoas pretas e/ou indígenas e com atuação relevante na Amazônia e na Caatinga, integram o portfólio empreendedoras como Fernanda Stefani e Joziane C. Alves (100% Amazônia), Silvania de Deus (Ateliê da Sil), Natalia Martins (Giardino Buffet), Celina Hissa (Catarina Mina), Michelle Guimarães (Navegam), Erika Pontes (Oikos), Isabelle Câmara (Pluvi), Lia Quinderé (Sucré), Anna Luísa Beserra (SDW), Letícia Feddersen (Soul Brasil Cuisine) e Rebeca Wermont (Yby).

Negócios liderados por mulheres, especialmente quando conectados a territórios historicamente subinvestidos, ampliam perspectivas, distribuem renda e fortalecem ecossistemas locais.

Mulheres intraempreendedoras e lideranças corporativas

Além das empreendedoras que estruturam seus próprios negócios, a transformação também passa por mulheres que atuam dentro de grandes organizações, tensionando modelos, abrindo espaço para inovação socioambiental e articulando agendas estratégicas.

Ao longo dos anos, diversos projetos foram desenvolvidos em colaboração com empresas e organizações, envolvendo estratégias de impacto socioambiental, desenvolvimento de negócios, compras de impacto e iniciativas de inovação social corporativa.

Entre as intraempreendedoras que estiveram à frente dessas agendas estão Bruna da Silva Lima (RD Saúde), Elizete Lopes (Sebrae RN), Flávia Sampaio (Grupo Boticário), Juliana Nobre (Pluxee), Manuela Mangia (Stone) e Rosângela Petry (Sicredi).

Construção em rede: especialistas que ampliam o debate

As soluções que buscamos desenvolver também se apoiam na construção em rede e no diálogo com especialistas que se dedicam há anos ao estudo e à prática dessas agendas.

Essas colaborações ajudam a ampliar a consciência crítica sobre desafios estruturais, trazendo referências conceituais, evidências e diferentes perspectivas para o desenho de estratégias e projetos.

Recentemente, contamos com a contribuição de especialistas como Luciane Moessa de Souza (Soluções Inclusivas Sustentáveis), Kenia Antonio Cardoso (Fundação Tide Setubal), Lena Lavinas (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Beatriz Schwenck (Instituto Paul Singer).

Seguimos acreditando que soluções consistentes não nascem de respostas prontas, mas de processos coletivos bem conduzidos. É na articulação entre diferentes saberes que ampliamos possibilidades e desenhamos caminhos mais estruturantes.

Um pouco da nossa história: mulheres no centro da lógica de crédito

A relação entre mulheres e transformação econômica também está presente na origem do movimento de negócios sociais.

Quando o Professor Muhammad Yunus fundou o Grameen Bank, em Bangladesh, a decisão de priorizar mulheres no acesso ao microcrédito não foi casual. Desde sua concepção, a instituição buscou alterar a lógica do sistema bancário convencional ao direcionar crédito para quem historicamente tinha menos acesso a ele.

A experiência demonstrou que, quando mulheres tinham acesso a capital, os impactos tendiam a se ampliar para além da renda individual, refletindo na educação dos filhos, na melhoria das condições de vida das famílias e na organização comunitária.

Decisões estratégicas como essa mostram que ampliar o acesso a capital também significa enfrentar barreiras históricas e reconhecer como desigualdades econômicas e de gênero estão profundamente interligadas.

Olhando para frente

Reconhecer e apoiar trajetórias femininas no campo do impacto socioambiental não é apenas uma questão de representatividade. Trata-se de fortalecer soluções que, na prática, já vêm contribuindo para gerar renda, ampliar oportunidades e transformar territórios.

Ao conectar empreendedoras, lideranças corporativas, especialistas e investidores em torno de agendas comuns, ampliamos as condições para que essas iniciativas se desenvolvam, ganhem escala e continuem construindo novos caminhos para uma economia mais inclusiva e sustentável.

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